Aumento da adesão ao veganismo : A redução do consumo de carne e a consequente diminuição dos impactos ambientais
A viralização do tema ‘veganismo’ na pandemia permite a conscientização e diminuição do consumo de carne.
Por Beatriz Cintra, Blaranis Gomes e Isadora Braga
O consumo de carne e seus impactos ambientais
Para entender como o consumo de carne impacta o meio ambiente é necessário compreender também como a produção de carne atua. Ou seja, é preciso entender o procedimento desde a criação do gado até a carne em seu prato.
Para criar um gado são necessárias grandes porções de alimentos; para que a carne da vaca seja proteica o suficiente para chegar em seu prato, são necessários mais de QUINZE quilos de cereais por dia em sua alimentação.
Com isso, já podemos entender que há uma crise hídrica no processo, uma vez que é necessária a utilização de água para a plantação dos cereais e também para a alimentação e sustentação de um gado. Mas a crise hídrica não para por aí, a média global da pegada hídrica de um quilo de carne bovina é de 15,5 mil litros de água.
A criação de gado é feita em larga escala, ou seja, há uma grande concentração de gados que gera resíduos (urina e fezes) que se depositam no solo. Mesmo em um local com limpeza regular, esses resíduos contaminam a terra e, além de deixá-la imprópria para diversos tipos de plantações, também contaminam os lençóis freáticos.
Mas como se tudo isso não bastasse, o consumo desenfreado de carne promove o desmatamento que, somado com os gases que são emitidos pelos gados, intensificam o efeito estufa e gera um problema ambiental descomunal e preocupante.
Para complementar mais sobre o consumo de carne e os impactos ambientais,foi convidado o especialista Marcelo Maestrelli, docente em geografia e autor de material didático para as séries de Ensino Médio e Curso Pré-Vestibular.
Ele fala que o consumo de carne gera uma alta demanda para o desenvolvimento da atividade pecuária, sendo assim, muitas áreas de formações vegetais nativas foram substituídas por áreas de pastagens, impactando sobre o funcionamento natural dos ecossistemas. Assim, todo o ciclo hidrológico gera uma maior emissão de metano, a partir dos gases expelidos pelos animais em seu trato digestório.
Além desses impactos, é possível também a acidificação dos oceanos, que têm relação direta com o avanço do desmatamento e a eutrofização, que podemos relacioná-la com os dejetos animais. No entanto, o uso abusivo da água e da terra aparecem fortemente relacionados com o desenvolvimento da atividade pecuária.
Apesar de compreender os impactos que o consumo de carne pode promover, é preciso estar atento ao fato de que o consumo de água na atividade agrícola também é significativo. Ou seja, mesmo que o veganismo cresça e possa vir a diminuir algumas implicações negativas para o meio ambiente, o impacto da redução do uso de água - que é o mais evidente na atividade pecuária- ou de contaminação da mesma pela pecuária possa ser substituída pela utilização e contaminação da água pela agricultura.
Mas, isso significa que não adiantaria nada, então? Não! De acordo com uma pesquisa da Universidade Johns Hopkins, publicada na revista científica Global Environmental Change, a diminuição no consumo de produtos de origem animal - ainda que apenas um dia por semana - reduziria substancialmente o impacto de cada habitante sobre as emissões de gases de efeito estufa. De acordo com a SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira);ser “vegetariano por um dia” é capaz de reduzir aproximadamente 14 kg de CO2 emitidos na atmosfera; economizar 3.400L de água; e preservar 24m2 de terras.
Nesse sentido, acredita-se que há uma necessidade de mudanças nos hábitos alimentares para diminuir esses impactos além de promover uma qualidade de vida melhor. Qual mudança seria essa? O veganismo. Para falar mais sobre, trouxemos Anelise Schinaider, Doutoranda em Agronegócios- UFRGS (2018-2022) e Mestra em Agronegócios- UFRGS (2016-2018), autora do artigo “Influência do veganismo no setor agroalimentar” para versar sobre a adesão do veganismo e de sua influência no setor agroalimentar.
A doutoranda fala: “As pessoas acabam buscando o veganismo por uma questão de estilo de vida e quando eu trouxe a problematização desse tema, eu acreditava que fosse por questões ambientais, já que 70% das terras agrícolas do mundo inteiro são direcionadas para a produção pecuária. Além disso, acreditava que as pessoas escolhiam o veganismo por uma questão de saúde, já que 30% das pessoas que possuem dietas ocidentais, têm risco de sofrer um ataque miocárdio devido às frituras, carne, ovo entre outros, e também acreditava ser por direitos dos animais devido ao documentário "Terráqueos".
Então, foram 3 questões: ambientais, de saúde, direito dos animais e por fim, descobri que é um nicho de mercado.”
Dessa forma, é necessário compreender que há outras alternativas além da dieta carnívora, e estas se encontram nas dietas vegetariana ou vegana. Desse modo, Anelise nos relembra e nos indaga: “Nós temos uma grande produção de soja, por que não agregar valor a esse produto e transformar em uma proteína de consumo tão importante quanto a carne no nosso país? Já está sendo feito? Já, mas por que a gente exporta tanto e não coloca essa produção para esse tipo de consumidor?”
Se tivéssemos mais adeptos ao veganismo, teríamos um efeito muito benéfico para o meio ambiente, sem contar o ganho no estilo de vida das pessoas, pois gera um bem-estar ligado a si próprio, ligado também com a natureza, com a sociedade e com os animais. Assim, por que insistir nesse mercado oriundo de produtos animais? Por que não promover esse nicho de mercado e assim promover esse bem-estar cultural, ambiental e social?”
Para compreender essas indagações, é preciso atentar-se ao fato de que se alimentar com carne é um hábito de consumo desde os primatas. Desde os primórdios da sociedade. Esse mercado é muito presente, então já é um consumo consolidado e pela sociedade. Mas vale lembrar que só existe mercado se houver consumidor e ao mesmo tempo só vai haver consumidor se tiver mercado.
Logo, a dieta vegana se mostra muito importante para desenvolver esse nicho comercial que está carente de expansão, e também para reduzir os impactos ambientais. O veganismo consiste em abster-se do consumo de qualquer produto que tenha origem animal (que não usufrui do animal, com exploração ou como realização de testes, para produção de roupas e produtos de beleza cruelty-free).
Assim , o veganismo não é uma questão de dieta alimentar, mas sim um estilo de vida associado ao não uso de produtos oriundos de animais e por isso ele também se relaciona com o agroalimentar, porque existe toda uma cadeia produtiva (desde os fornecedores, até o consumidor final) que tem benefícios a partir do veganismo. Ou seja, o veganismo movimenta uma questão sociocultural, como também movimenta um setor produtivo no tocante ao agronegócio e ao setor alimentar.
Nesse sentido, as pessoas adotam o veganismo por um estilo de vida, não por moda. Há realmente uma mudança de pensamento, na maneira de agir e de se comportar. Um dos grandes fatores motivacionais para essa drástica mudança, foi a busca por um bem-estar na saúde aliada com uma intenção de mudança comportamental , já que os adeptos ao veganismo usufruem de um alimento saudável, ético e eco inovador (eco, pela questão ambiental, inovador por ser algo novo no mercado), que promove à vida social em seu conjunto um bem-estar sócio-político-cultural, além de um bem-estar próprio.
É difícil prever a longo prazo quais seriam as mudanças se todos se tornassem veganos, mas é possível prever que haveria um novo arranjo das relações entre sociedade e meio ambiente. “O agronegócio tem que enxergar esse lado positivo.
Sabemos que não vamos mudar o mundo, é difícil pois a gente começa com uma ideia muito gigante e afunila aos poucos, mas quem puder ler ou ouvir sobre o assunto já é algo que se diferencia, começando a tomar consciência sobre o assunto”; afirma Anelise.
A adoção de uma dieta vegana é de suma importância para diminuir os impactos ambientais e promover um bem-estar em todos os sentidos, assim como é necessária a compreensão de que o veganismo promove uma DIMINUIÇÃO dos problemas ligados ao meio ambiente, mas não os extingue. Ainda assim, dietas e estilos de vida que não compreendem insumos animais são os mais recomendados.
Confira o nosso infográfico para entender mais sobre o assunto:
A tendência ‘vegan’
Um dos conceitos da palavra “tendência” refere-se a tudo aquilo que leva alguém a seguir um determinado caminho, a agir de certa forma ou ter preferência por determinadas coisas. Tendência pode ser traduzida também como sinônimo de vocação. Seria o veganismo uma tendência ou apenas uma moda passageira dentre o seu público?
Referência no cenário musical do Brasil, a cantora Anitta anunciou, no início do ano de 2020, que estava a fim de mudar alguns hábitos. Dentre eles, seu principal objetivo era cortar de suas refeições qualquer alimento com origem ou matéria-prima animal.
O veganismo é um estilo de vida em ascensão e não se resume apenas ao ato de não comer carne. Vai muito além, correspondendo também à prática de se abster de quaisquer coisas que tenham ingrediente animal, incluindo produtos de beleza e higiene.
“Cada vez mais tem aparecido na mídia os assuntos vegetarianismo e veganismo. Estamos com bastante famosos aderindo à causa e eles são, sem dúvida, os maiores porta-vozes do movimento, porque eles alcançam diversas pessoas.” - explica a digital influencer, Juliana Constantino.
Vem aumentando o número de consumidores que têm baseado suas decisões, na hora de finalizar uma compra, nos métodos utilizados pela indústria na produção dos itens. No meio vegano, o cuidado com os animais é o assunto que mais se destaca. Este público é composto, em sua maioria, pelas novas gerações, que estão representando uma grande parcela dos consumidores de hoje e que serão maioria no futuro.
Entre os diversos motivos que podem gerar esse impulsionamento no mercado dos alimentos à base de plantas, alguns fatores são considerados os principais motivadores, dentre eles: o aumento da intolerância da população à proteína animal; a urbanização crescente, que vem acompanhada de novos anseios de consumo; e por fim o aumento do número de veganos e vegetarianos.
Além disso, há um foco crescente em pesquisa, desenvolvimento e lançamentos de novos produtos, além da demanda crescente pelos produtos vindos de economias emergentes, como Ásia-Pacífico, América Latina, Oriente Médio e África, que devem gerar oportunidades importantes de lucro e expansão deste mercado.
Contudo, o que leva as pessoas a se interessarem pelo veganismo? Seria uma busca pelo estilo de vida? Um movimento em defesa da causa animal e do meio ambiente? A procura por uma alimentação mais saudável? Ou apenas o anseio para estar na mais nova moda?
Segundo o novo relatório da plataforma de insights do consumidor, impulsionada pela inteligência artificial, Tastewise, a saúde se apresenta como o principal elemento motivador para o aumento das vendas de alimentos veganos.
A empresa avaliou, ainda, uma ênfase crescente na busca por alimentos saudáveis e funcionais que visam, sobretudo, à perda de peso, com um aumento de 21% no último ano. Além de questões relacionadas ao peso, o estudo destaca o aumento do interesse na saúde intestinal e na melhoria geral da energia, tendo a alimentação como fonte.
O consumo de alimentos veganos se encontra intimamente relacionado à uma tendência nutricional da alimentação saudável, pois se traduz em diversos benefícios físicos.
A influencer digital conta um pouco sobre como foi a sua trajetória dentro do veganismo, o que a levou a querer fazer parte do movimento e suas motivações pessoais:
"Virei vegetariana em 2017 por causa dos animais; quem me incentivou foi um amigo meu e mudei da noite para o dia. Parei com toda carne de uma vez, após assistir diversos documentários e me aprofundar mais no assunto. Então, quando eu entendi o impacto para a saúde e o meio ambiente, decidi virar vegana. O ponto de partida foi porque eu tenho linfoma e quando parei meu câncer curou (só que voltou ano passado).”
Juliana Constantino também compartilha o que a levou a seguir essa carreira de influencer digital no segmento do veganismo:
“Eu acredito muito em propósito! Certa vez eu ouvi, em uma meditação guiada, que a gente deve procurar um trabalho que não seja só focado em ganhar dinheiro, mas sim que tenha um propósito de ir mais além, movimentar alguma causa, que tenha impacto positivo. Desde então, eu busco isso”.
É importante ressaltar que o consumo vegano tem se expressado cada vez mais nas redes sociais e se propagado nos grupos formais e informais, tudo com a finalidade de atender à demanda, o que está se tornando uma tendência.
A nutricionista funcional, Vitória Carvalhaes acredita que a viralização do tema na internet permitiu alavancar o número de adeptos ao veganismo e fala sobre a importância da campanha Segunda Sem Carne para o movimento:
“A campanha se propõe a conscientizar as pessoas sobre os impactos que o uso de produtos de origem animal para alimentação tem sobre os animais, a sociedade, a saúde humana e o planeta, convidando-as a descobrir novos sabores, ao substituir a proteína animal pela proteína vegetal em pelo menos uma vez por semana. Na minha opinião a ideia da campanha é incrível. Acredito que é uma ótima maneira das pessoas quebrarem o tabu da alimentação vegetariana/vegana.
Além do que, é um bom primeiro passo para quem não sabe por onde começar.”
A nutrição funcional, que é trabalhada por Victória, tem como objetivo equilibrar os sistemas fisiológicos e metabólicos do indivíduo por meio de suas reais necessidades nutricionais. Para que isso ocorra, são realizados estudos metabólicos e das condições físicas do paciente. Dessa forma é desenvolvido uma dieta individualizada.
A nutricionista ainda explica que não é porque alguém se propõe a ser vegano, que automaticamente a sua dieta será saudável. Na realidade, este novo estilo de vida pode causar muitos prejuízos à saúde, caso seja feito de forma incorreta.
Sendo assim, uma questão importante é saber se há prejuízos na saúde para quem deseja consumir uma dieta vegana. Vitória Carvalhaes esclarece sobre os benefícios e malefícios desse tipo de alimentação:
“Não há prejuízos, porém, deve ser feito um acompanhamento nutricional com um profissional capacitado para balancear a alimentação e evitar deficiências nutricionais. Os benefícios são diversos. No quesito nutricional observa-se a prevenção e o tratamento de diversas doenças crônico-degenerativas não transmissíveis. Além disso, há menores riscos de doenças cardiovasculares, oculares, renais e câncer.”
Que o consumo de carne está relacionado a diversos problemas de saúde, não é novidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já apontou que as carnes processadas são produtos altamente cancerígenos, assim como o consumo de carne vermelha pode ser considerado potencialmente cancerígeno.
A American Heart Association, em contrapartida, publicou um estudo que aponta que o consumo de dietas à base de plantas é atrelado à redução do risco de doenças cardiovasculares e da mortalidade, em geral. De maneira similar, um estudo da Harvard Medical School apontou que deixar o consumo de carne pode prevenir cerca de um terço das mortes prematuras.
Além disso, em um estudo realizado na Universidade de Florença, na Itália, descobriu-se que, entre os veganos, o risco de ter câncer é 15% menor em comparação com quem consome carne e derivados. Já uma revisão publicada no periódico British Medical Journal chegou à conclusão de que a dieta vegana facilita a perda de peso e, em diabéticos, ajuda a baixar os níveis de glicose, triglicérides e colesterol.
Assim, percebemos que a resposta para a nossa pergunta inicial é que: a "tendência vegan” veio definitivamente para ficar e que é provável que ela inclusive se dissemine cada vez mais, não apenas no Brasil, como no mundo.
Além disto, há mais adeptos ao veganismo ou a traços dele a partir do movimento “Segunda Sem Carne”, ou seja, são cruciais as iniciativas que são promovidas e disseminadas em prol da alimentação à base de plantas.
Apesar de ainda estarmos com poucas campanhas que incentivam o veganismo e o vegetarianismo, as que existem são extremamente importantes. Vitória Carvalhaes comenta um pouco sobre o que falta ser disseminado quando o tema é veganismo:
“Apesar das divulgações estarem crescendo e possuírem bastante informação com um bom embasamento, sinto que falta mostrar que esse tipo de alimentação pode ser acessível para todos os públicos. Na minha opinião, ainda existe um certo tabu de que a alimentação vegana só é acessível a classes sociais média e alta. Portanto, acho muito necessário que as divulgações consigam levar o veganismo como uma forma mais concreta sobre essa revolução alimentar.”
Também é importante ressaltar que, durante a pandemia, as pessoas foram em busca de dietas mais saudáveis e foi perceptível o aumento pela busca de receitas e conteúdos informativos sobre o movimento.
E agora na pandemia, como fica?
Com a chegada da pandemia, as redes sociais conquistaram um lugar maior do que já possuíam, e as informações sobre o veganismo nelas hospedadas surtiram um verdadeiro “BOOM”. A plataforma de vídeos Tik Tok foi responsável por 8,1 bilhões de visualizações em vídeos relacionados ao veganismo em 2020, dados esses expostos por uma pesquisa realizada pela Chewsygum , empresa de chicletes veganos do Reino Unido, baseada no levantamento dos vídeos marcados com a hashtag #vegan.
O Instagram lançou a ferramenta “Reels”, que disputa com os vídeos curtos do Tik Tok, e nela o aumento das visualizações em vídeos sobre o assunto também é constante. A exemplo disso, vídeos de receitas no perfil @vegcomcarinho da influencer Laura Dickers na nova ferramenta do Instagram, possuem marcas de 100 a 200 mil visualizações, e um deles ensinando a fazer queijo quente vegano, ultrapassa 417 mil visualizações. Motivos do porquê se tornar vegano, receitas culinárias fáceis que substituem a alimentação carnívora, dicas de marcas e produtos veganos, os benefícios do veganismo para a saúde e o meio ambiente, são alguns dos assuntos abordados de forma divertida e rápida por esses vídeos, que estão a cada dia mais viralizados.
No episódio #1 do EnutrietCast “A viralização do Veganismo”, a redação Enutriet conversou com a influencer digital, Laura Dickers, confira!
Os vídeos e posts virais relacionados ao segmento vegano promovem visibilidade para esse estilo de vida.Pelas redes sociais, os usuários começam a pesquisar sobre o movimento, os motivos que levam as pessoas a se tornarem adeptas ao veganismo, e,como consequência, questionarem o porquê não tentar, mesmo que aos poucos, a se tornarem veganos.
As receitas que substituem opções não veganas por veganas estão sendo cada vez mais buscadas.No começo podem até ser pesquisadas por curiosidade, mas é essa dúvida que leva muitas vezes ao “start” de uma nova vida.
A pesquisa realizada pela empresa de chicletes veganos do Reino Unido também apontou o aumento do número de pessoas na pandemia que buscaram por receitas veganas no TikTok, em que hashtags como #veganrecipes (receitas veganas) somaram 983 milhões de visualizações. Esses números não influenciam somente nas cozinhas dos usuários considerados como comuns das redes sociais, como também na produção das pequenas e grandes empresas do ramo alimentício.
O mercado precisa ser renovado de acordo com as necessidades do público, logo, se o veganismo está em alta, aquelas empresas que não aderirem a ele de alguma forma, ainda que minimamente , ficarão obsoletas . Nomes como Burger King, McDonalds, Hellmann's, Kibon, Pif Paf, Nestlé, Unilever,entre outros bastante conhecidos no mercado alimentício, introduzem opções veganas às suas marcas, alguns há mais tempo, outros iniciando, e ainda existem aqueles que já estão há mais tempo produzindo para o estilo vegano, e que agora buscam formas de se reinventar e lançar novidades acerca da pandemia.
O site Veganismo Estratégico,divulgador artigos que abordam ações, campanhas e estratégias do ponto de vista pragmático, com a finalidade de promover o fim da exploração animal, publicou uma matéria em 2019 sobre algumas marcas tradicionais do ramo alimentício que estavam de olho no mercado vegano, assim como uma análise de como ele funciona, de acordo com o aumento dessas opções.
De forma simplificada, a matéria esclarece que os mercados, aqueles não específicos ao ramo vegano mas que fornecem produtos para esse público, e os exclusivos ao veganismo, se expandem de acordo com a necessidade do público adepto ao movimento e começam a competir entre si, fazendo com que os preços das mercadorias se equiparem. Uma matéria publicada pela Revista Nutri Online , acerca do espaço que o veganismo está ganhando no mercado, aponta a pandemia como impulso para uma busca maior por alimentos veganos, uma vez que trouxe luz aos problemas causados pela indústria da carne, como desenvolvimento de novas doenças zoonóticas com potencial pandêmico.
O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP realizou uma pesquisa, durante a pandemia, que aponta a mudança dos hábitos alimentares brasileiros, em que a busca por uma vida mais saudável cresceu de 40,2% para 44,6%, com a diminuição do consumo de carne e o aumento de frutas, legumes, grãos e verduras. Ainda que a busca por uma vida saudável durante esse período pandêmico tenha aumentado, e, consequentemente, o vegetarianismo e o veganismo, é necessário relembrar que deve haver um acompanhamento profissional para que tais estilos de alimentação se tornem equilibrados nas questões nutricionais, fazendo com que tragam até mais benefícios do que uma dieta convencional à base de carnes.
Além disso, a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) publicou esse ano a queda de quase 14% no consumo de carne em relação ao período anterior à COVID-19,mas existem diversos fatores que contribuem para a baixa desse número, como questões econômicas diante da crise.
O professor Marcelo Maestrelli acredita que, em relação à diminuição desse consumo haja um fator importante: a queda do poder aquisitivo de grande parcela da sociedade, que limita o acesso aos alimentos e modifica a dieta de muitas pessoas de maneira forçada, implicando no menor consumo de carne em função do preço incompatível com sua renda, superando muitas vezes as questões de tomada livre de consciência sobre os impactos ambientais.
Porém, não seria certo descartar o aumento da aderência do veganismo como uma parcela contributiva para tal questão, já que nunca houve um crescimento tão grande em carnes vegetais, que já estão a um bom tempo no mercado, triplicaram vendas no primeiro semestre de 2020. Além disso, opções diferentes acerca das carnes vegetais são lançadas a todo momento, tanto que em 2019 a Google divulgou informações sobre as buscas pelo termo “carne vegetal” no Brasil, e o aumento foi de 150% relacionado aos quatro anos anteriores. Se pouco antes da pandemia, que ainda não tinha sofrido o “boom” do veganismo nas redes sociais, já havia esse aumento pela procura, o progresso já era de se esperar.
Ainda que os números do movimento não sejam tão expressivos acerca de seu impacto na economia, Maestrelli também opina e concorda que há o fator relativo ao crescimento do grau de conscientização espontâneo e das questões culturais de determinados grupos.
O Ibope junto com The Good Food Institute Brasil (GFI) mostraram que o mercado baseado em plantas passou de tendência à realidade no Brasil, impactando positivamente no meio ambiente e no corpo dos veganos. Pesquisas e dados não faltam para mostrar que a pandemia fez com que o veganismo passasse de um modo de vida secundário para um modo impulsionador . O momento reflexivo que a sociedade vive hoje põe na balança várias questões que o movimento aborda, sensibilizando mais, fazendo com que se enxergue o quanto o veganismo não é passageiro.
Ainda que o vírus tenha trazido tantos motivos para não comemorarmos, o crescimento do veganismo possibilitou uma condição melhor na saúde, no meio ambiente e até mesmo na empatia das pessoas. Esses fatores fazem com que haja motivos de celebração do movimento vegano, especialmente por estar entre as pautas mais centrais de discussões. A certeza é a de que o veganismo garantiu um lugar a partir do qual não será mais exceção, com uma propensão de que tal espaço estará a cada dia mais expandido.

O veganismo, além de ajudar os animais e o meio ambiente, também é benéfico para o organismo. Foto: Reprodução



As receitas que substituem opções não veganas por veganas estão sendo cada vez mais buscadas.Foto: Reprodução
O consumo desenfreado de carne promove o desmatamento que, somado com os gases que são emitidos pelos gados, intensificam o efeito estufa. Foto: Fernanda Yumi Wakayama
Em um estudo realizado na Universidade de Florença, na Itália, descobriu-se que, entre os veganos, o risco de ter câncer é 15% menor em comparação com quem consome carne e derivados. Foto: Fernanda Yumi Wakayama
