Veganismo e a indústria: a nova busca por produtos veganos e a chegada do movimento cruelty free na produção de cosméticos
Do movimento cruelty free aos produtos de produção 100% vegana, as grandes marcas tentam se adequar aos novos padrões de consumo e as pequenas encontram espaço para consolidar-se no mercado
Por Edivaldo Carvalho e Julia Barduco

O Brasil é um dos gigantes da indústria cosmética, sendo o quarto maior mercado do mundo. (Foto: Fernanda Yumi Wakayama | Yellow Senses/Reprodução)
A Pandemia de COVID-19 é geradora de crises quase impensadas há dois anos. Ao andar na rua de qualquer cidade, é possível notar as inúmeras lojas fechadas, estabelecimentos com placas de venda e aluguel na fachada e um grande número de empresários e empreendedores desesperados com os números da crise.
Surpreendentemente, contudo, alguns raros mercados continuam crescendo e, inclusive, foram impulsionados pela pandemia. É o caso da indústria brasileira de cosméticos.

Além dos números impressionantes, as tendências de consumo também mudaram durante a pandemia. O aumento da divulgação de estilos de vida eco friendly nos últimos anos pela mídia, como o vegetarianismo, e de movimentos políticos, como o veganismo, culminou em uma população mais consciente acerca da vida que gira em torno de produtos industrializados, em que não é possível saber a procedência dos materiais.
Essas mudanças, contudo, não pararam no nicho da alimentação, que é a primeira coisa em que se pensa ao falar sobre o movimento vegano, apesar dele e do vegetarianismo conquistarem cada vez mais adeptos no Brasil (ainda em 2018, 14% da população já se declarava vegetariana, segundo dados do IBOPE daquele ano), a tendência chegou também a outros segmentos e a autogestão sustentável é almejada por um mercado cada vez maior.
Muitas pessoas agora precisam saber exatamente o que estão consumindo em qualquer aspecto da vida, não aceitam mais não entender os rótulos de produtos e tendem a escolher aqueles mais próximos do natural.
No caso dos cosméticos não foi diferente. As pesquisas no Google por ‘cosméticos veganos’ no país se multiplicaram desde 2016, partindo de 0 pontos naquele ano e chegando a 81 atualmente.
É a busca por um consumo mais ético, ou seja, que não agrida nem a natureza, nem a nenhum ser vivo, que está impulsionando a demanda por cosméticos veganos.
Clean beauty veio para ficar
Já há um termo para esse novo movimento de mercado: clean beauty. Ainda não há uma definição exata para ele, mas, basicamente, trata-se daquelas marcas ou produtos conscientes, não tóxicos, sem ingredientes como parabenos, sulfatos, silicones e que podem ser orgânicos, naturais e/ou veganos.
Não se deve, contudo, confundir os produtos orgânicos, naturais e veganos entre si. Apesar de um mesmo produto poder assumir as três classificações, suas definições são distintas. Os produtos orgânicos são aqueles em que as matérias-primas são naturais e baseadas nos métodos do sistema orgânico de produção, sem o uso de materiais sintéticos na cadeia produtiva; os naturais são aqueles em que não possuem aditivos químicos em sua composição e, por último, os veganos são aqueles em que não utilizam quaisquer ingredientes de origem animal.
Além do clean beauty, outro termo vem sendo muito utilizado nos últimos meses: o cruelty free, que nada mais é que produtos e marcas que não fazem testagem em animais e são livres de crueldade contra eles. Essas marcas recebem em seus rótulos um selo, como o da organização People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), deixando claro ao consumidor que a marca foi certificada como livre de testes em animais. É importante lembrar que diferentes selos de diferentes organizações possuem diferentes requisitos para certificar as marcas e é preciso que o consumidor analise o que é importante para ele.

“Os animais não são nossos para comer, usar, fazer experiências ou para entretenimento” é o lema da PETA. (Imagem: Reprodução/PETA)
O termo ficou especialmente conhecido após o lançamento do curta-metragem “Save Ralph” e sua divulgação em massa nas redes sociais. O curta, produzido pela Humane Society International (HSI), conta a história de um coelho cobaia que sofre com as químicas de empresas de produtos cosméticos, e levanta debates sobre a importância de utilizar produtos livres de crueldade, uma vez que a evolução tecnológica e científica das últimas décadas já permite testes alternativos (por técnicas in vitro que não prejudicam nenhuma vida) tão eficazes quanto os testes em animais.

Ralph, curta-metragem lançado em abril deste ano, tornou-se viral nas redes sociais. (Foto: Reprodução/Humane Society International)
Mas quais seriam os benefícios de utilizar esses produtos em detrimento de outros para os consumidores?
Para Sabrina Prado, estudante de medicina veterinária pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE), que começou a utilizar produtos veganos e cruelty free há aproximadamente um ano, os benefícios são vários. “Minha pele ficou muito melhor quando passei a usar produtos veganos, encontrei preços acessíveis e me sinto melhor por não poluir o meio-ambiente. Pela marca que eu uso, até as embalagens são sustentáveis! Inicialmente, minha escolha não foi política, foi pelos benefícios para mim trazidos pelo uso. Nosso corpo sabe como processar melhor ingredientes naturais; agora já faço questão e quase todos os meus cosméticos são veganos.”
Já para Vitória Cristina, auxiliar de sala, a escolha por esses produtos foi política desde o início. “Eu utilizo produtos veganos há aproximadamente três anos. Eles são melhores que os produtos não-veganos pois possuem menos química. A gente sabe o que tem dentro da embalagem, a lista de ingredientes não possui insumos questionáveis e dão resultados melhores. A minha escolha, porém, foi principalmente por uma questão ética; os benefícios ao cabelo foram uma surpresa muito bem-vinda. Não consigo mais utilizar produtos que não sigam essa linha de fabricação.”
No episódio #4 do EnutrietCast “Consumismo ético e clean beauty”, a redação Enutriet conversou com mais consumidores sobre os motivos de utilizarem cosméticos veganos, confira!
Além dos benefícios individuais, quando existe uma preferência maior por produtos não testados, os benefícios para o meio-ambiente são incomensuráveis. Com menos pessoas comprando produtos que utilizam amônia, silicone, derivados de propileno, derivados de petróleo, etc., menos impacto se gera na natureza a partir da produção e, em seguida, descarte desses produtos no solo, no mar, em rios ou no ar. Até a embalagem de produtos veganos, naturais e/ou orgânicos são mais ecologicamente corretas e os ingredientes são cultivados de forma sustentável.
Esse aumento na busca pela clean beauty ainda possibilita outro fenômeno; a criação de pequenas marcas independentes, que lutam por um espaço num mercado onde grandes indústrias comandam a cena.
Pequenas empresas, grandes soluções
Entre essas muitas marcas pequenas, está a Yellow Senses, que atende a pequena cidade de São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo. A marca foi criada por Juliana Baptista, estudante de Terapia Ocupacional na Universidade de São Paulo (USP).
A imagem da marca surgiu para Juliana de forma espontânea. Ela aprendeu a fazer cosméticos naturais para uso particular, a partir de uma alergia que passou a ter após o diagnóstico de ansiedade. Como na cidade, que tem cerca de 60 mil habitantes, era muito difícil encontrar esses produtos, as pessoas pediram que Juliana criasse uma loja para vender produtos personalizados a cada cliente.

A Yellow Senses é a única marca da cidade a vender cosméticos veganos e naturais (Foto: Fernanda Yumi Wakayama | Yellow Senses/Reprodução)
O que a inspirou a expandir a loja para atender não só seus amigos, mas toda a cidade, foram as primeiras ideias em relação a marca. Primeiro, a questão do ambiente: não usaria produtos de origem animal em sua composição, não testaria em animais e não utilizaria plástico, nem na composição e nem na embalagem dos produtos e os resíduos gerados seriam mínimos. Além disso, fez questão de que um de seus diferenciais fosse que os produtos seriam acessíveis para todo mundo, uma vez que os cosméticos naturais e veganos de grandes marcas costumam ter um valor alto.
Estudar para manter a loja foi essencial para transformar essas primeiras ideias em valores da marca. Algumas condutas do grande mercado deixaram de fazer sentido para Juliana: por que uma empresa iria usar um componente sintético, que pode trazer efeitos colaterais, se existem ingredientes naturais, que não causam esse problema? Por que ao invés de utilizar produtos naturais, grandes empresas fazem testes de sintéticos, causando a perda valiosa de tantas vidas animais? Por que, se é tão necessário o uso de sintéticos, não utilizam testes que não agridem ninguém? Se existe um produto que tem a mesma performance, que vai ter os mesmos resultados e não tem crueldade animal, não tem poluição, por que são vendidos os que têm todos esses aspectos prejudiciais? O que, de fato, as pessoas estão consumindo ao comprar marcas que usam insumos sintéticos e de origem animal em sua composição?
São essas perguntas que fazem com que Juliana apoie marcas de cosméticos pequenas, uma vez que, para ela, consumir produtos veganos e naturais representa conhecimento. “Ao apoiar pequenas marcas e empreendedores locais, você sabe o que está na composição, de onde vem os ingredientes, quais são os benefícios que eles trazem. É possível entender melhor como seu corpo reage a cada ingrediente, o que faz ou não bem a você, assim dá para nortear caminhos, para buscar o que realmente é necessário para você.”
Além desses fatores, marcas pequenas conseguem fazer aquilo que as grandes não conseguem: um marketing intimista, interativo e informativo.
No vídeo a seguir, a Enutriet conversou com a equipe de produção da Yellow Senses, composta por Juliana e por Denilson Girolla, químico e mestrando em tecnologia de cosméticos pela USP.
A corrida das grandes marcas
Enquanto as pequenas empresas fazem sucesso no segmento, as grandes marcas tentam se adequar às novas exigências dos consumidores, em um mercado que não para de crescer. Empresas já há muito tempo estabelecidas passam a divulgar linhas de produtos naturais, veganos e orgânicos e a busca pelo selo cruelty free é incessante.
A francesa Garnier, subsidiária da L’Oreal Paris, por outro lado, ainda não oferece opções 100% veganas no mercado, mas recebeu em março deste ano o selo Cruelty Free International. Em 2018, a britânica Dove adquiriu o selo cruelty free da PETA. Apesar disso, a empresa segue vendendo para países que exigem por lei teste em animais, para que os produtos sejam vendidos em seus territórios, como é o caso da China.
O mesmo ocorre com a Avon, que também possui o selo PETA e com a Natura, que recebeu o selo Cruelty Free International em 2018. Contudo, a Natura é dona do conglomerado Avon, que vende para países como a China. Dessa maneira, nenhuma das duas marcas é verdadeiramente vegana, apesar de apresentarem linhas que afirmam ser.
Casos como esses trazem mais um anglicismo para os diversos dessa indústria: o greenwashing.
Significando: green, verde e wash, encobrir, o greenwashing é uma prática comum, não só na indústria dos cosméticos, mas em todos aqueles setores em que o consumismo ético passa a valer a partir da conscientização do público consumidor. É a apropriação indébita de virtudes ambientalistas - no caso dos cosméticos o não teste em animais e a produção de cosméticos veganos, naturais ou orgânicos - por parte de empresas (ou pessoas, governos, organizações, etc) utilizando técnicas de marketing e relações públicas.
Avon, Dove, Natura e tantas outras praticam o greenwashing ao maquiar seus nomes como eco friendly, e seus produtos como veganos, ludibriando aqueles consumidores que ainda não foram suficientemente conscientizados a não acreditar apenas nos rótulos. Enquanto os pequenos empreendedores do nicho focam em informar, as grandes marcas tentam fazer justamente o contrário.
Mas nem tudo está perdido e nem todas as grandes marcas praticam greenwashing. A gigantesca Skala Cosméticos, empresa brasileira com mais de 30 anos de mercado, por exemplo, anteviu o boom dos cosméticos veganos e retirou todos os ingredientes de origem animal de sua produção em julho de 2018. A marca nunca fez testes em animais.
Outra grande marca brasileira totalmente cruelty free é a Salon Line, expert em produtos capilares que, apesar de ser bastante nova em comparação a outras empresas do mesmo porte, nunca fez testagens em animais. A empresa ainda não é completamente vegana, mas possui diversas linhas de produtos destinados àqueles consumidores que anseiam pelo consumismo ético.
A equipe Enutriet entrevistou Kamila Fonseca, representante da Salon Line. A entrevista relata para nós que a empresa nunca fez testes em animais, no entanto, o veganismo foi inserido ao longo dos anos.
Kamila afirma que a empresa “sempre teve alguns cosméticos veganos desde a fundação da Salon. Porém, só passamos a divulgar essa característica com o lançamento da linha #ToDeCacho em 2015. Posteriormente, trouxemos e incorporamos essa característica em outras linhas de produtos como a Meu Liso e a Maria Natureza”.
Ela ainda ressalta que, apesar do senso comum, a produção de produtos veganos não é mais cara, apenas requer mais cuidado. Necessita de pesquisa e também conhecimento de todos fornecedores envolvidos na cadeia de produção.
Quando perguntada sobre o aumento na busca por cosméticos veganos durante a pandemia, ela responde: "A consumidora vem há algum tempo procurando cada vez mais saber o que está dentro dos produtinhos que consome. A pandemia consolidou essa tendência. Muita gente passou a comprar online e a internet é um canal de venda que oferece também muito mais explicações e detalhes dos produtos."
A respeito dos benefícios trazidos pelo uso de produtos veganos, Kamilla explica: “Considerando que o veganismo é um estilo de vida, ao optar por um produto que não agride os animais, você deixa de contribuir para a criação de animais destinados a servir de cobaias em testes e práticas nocivas para eles. Além disso, vale considerar que os produtos veganos são ideais e indicados para qualquer tipo de cabelo, pois, como têm seus princípios ativos completamente vegetais, não há risco de danos aos fios e à pele.”
Kamila acredita que estamos longe de conseguir que todos cosméticos contenham mais ativos naturais que sintéticos, porém mais aliados se juntam à causa todos os dias.
Não basta que as grandes marcas tenham o selo “verde” e se posicionem como eco friendly ou cruelty free perante ao mercado, o que a indústria precisa é que elas ajam como tal e mostrem seu comprometimento com a causa, ou seja, criem produtos e os façam para todos os consumidores, independente de renda e outras características individuais (tipos de cabelo, tipos de pele, tons de pele etc).
A reflexão a respeito do consumismo ético recai sobre a sociedade, à medida que ela busca consonância com o planeta.
